China já sofre com uma onda global de calotes

Famílias de todas as partes do mundo têm agora US$ 12 trilhões a mais em dívidas do que tinham pouco antes da crise financeira de 2008, segundo relatório do Instituto de Finanças Internacionais

Data e Hora:  31/03/2020 10:03:17

Os primeiros indicadores da China não são bons. A dívida vencida do cartão de crédito aumentou quase 50% em fevereiro, em comparação a igual mês de 2019, segundo executivos de dois bancos. A Qudian, uma instituição de Pequim que faz empréstimos pela internet, diz que sua taxa de inadimplência saltou de 13%, no fim do ano passado, para 20% em fevereiro. O China Merchants Bank, uma das maiores instituições de crédito ao consumidor do país, disse neste mês que “fez uma pausa” em seus negócios com cartões de crédito após alta “significativa” na inadimplência. Estima-se que 8 milhões de pessoas perderam o emprego na China em fevereiro.
“Os problemas da China são uma prévia do que devemos esperar para o mundo todo”, disse Martin Chorzempa, pesquisador do Peterson Institute for International Economics de Washington.
A extensão da pressão sobre os consumidores e seus credores dependerá da eficácia dos esforços dos governos para conter o vírus e amparar suas economias, mas o potencial de perdas é imenso.
Famílias de todas as partes do mundo têm agora US$ 12 trilhões a mais em dívidas do que tinham pouco antes da crise financeira de 2008, segundo relatório do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês). A relação de endividamento das famílias sobre o PIB em países como França, Suíça, Nova Zelândia e Nigéria nunca esteve tão alta.
O maior banco da Austrália - país que tem o maior nível de endividamento familiar entre os países do G20 - disse na quinta-feira que suas linhas de assistência financeira estão recebendo oito vezes o número normal de consultas. Um aumento parecido de busca por informações vem inundando instituições financeiras dos EUA, onde os saldos do cartão de crédito chegaram a inéditos US$ 930 bilhões em 2019 e 3,28 milhões de pessoas solicitaram seguro-desemprego na semana até 21 de março - quatro vezes o recorde anterior.
Um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima uma perda global de empregos de quase 25 milhões, com perdas na renda de até US$ 3,4 trilhões. E esses números podem subestimar a magnitude do impacto do coronavírus, diz a OIT.
Poucos lugares registraram um salto tão grande no volume de empréstimos aos consumidores em anos recentes do que a China, onde a dívida das famílias, incluindo financiamentos imobiliários, saltou para o recorde de 55 trilhões de yuans em 2019.
Esse número quase dobrou desde 2015, graças a um boom imobiliário e crescimento de plataformas de crédito online como a Ant Financial. Embora os modelos de risco dessa firma se baseiem em grandes volumes de dados sobre pagamentos, eles ainda não foi testados por uma grande recessão econômica. Muitos dos consumidores que contraem esses empréstimos de curto prazo e juros altos - geralmente financiados por bancos através do aplicativo de smartphone Alipay, da Ant - possuem renda mínima e praticamente nenhum histórico de crédito.
“Desde 2015 os bancos vinham baixando seus critérios para competir”, diz Zhang Shuaishuai, analista da China International Capital. “A pandemia acelerou sua exposição a riscos. E isso só vai piorar se o desemprego aumentar mais.”
A Ant não quis fazer comentários para a reportagem.
As taxas de calote dos consumidores em alguns bancos já chegaram a atingir 4%, em relação a 1% antes da pandemia, segundo Zhao Jian, diretor da Atlantis Financial Research, citando uma pesquisa feita por bancos. Um executivo de um grande banco chinês disse que sua instituição está adotando medidas para apertar as condições de empréstimos no cartão de crédito ou mesmo desistir de alguns clientes, depois de ter registrado um rápido crescimento na inadimplência.
Com a inadimplência das empresas também em alta, os bancos chineses poderão enfrentar um aumento de 5,2 trilhões de yuans nos empréstimos em default e uma queda sem precedentes de 39% nos lucros neste ano, segundo um cenário pessimista traçado este mês por analistas do UBS Group.
Estímulos maciços dos governos poderão ajudar a amenizar o impacto. A maioria dos países anunciou planos de apoio econômico nos últimos meses, incluindo um pacote de US$ 2 trilhões pelos EUA, que fornecerá pagamentos diretos a americanos de renda baixa e média. Alguns dos maiores bancos do país prometeram oferecer períodos de carência para famílias que contraíram financiamentos imobiliários e que estão sendo afetadas pela crise.


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